Estou existo, mas não existo

Eu existo, mas não existo

Sabe, filha..

Desde aquela primeira vez em que te reencontrei, mesmo que de longe, mesmo que em silêncio, eu confesso que não imaginei que teria a chance de te ver outra vez, pelo menos não tão cedo. Para mim, aquele breve momento já parecia um presente generoso o suficiente: a simples confirmação de que você estava viva, que continuava respirando... Isso, por si só, já bastava para aquecer um pouco o coração que carregava tanto frio há tantos anos.

Mas o destino, ou seja lá o nome que se dá a essas coincidências insistentes, resolveu brincar com a minha lógica. Comecei a te encontrar com uma frequência quase impossível de ignorar. E, num primeiro instante, achei que era minha mente me traindo, que a culpa, a solidão, o peso dos anos estavam finalmente abrindo espaço para algum tipo de delírio. Pensei que eu estivesse alucinando.

Mas não... Era você. Era mesmo você.

Às vezes sozinha, mas na maioria das vezes acompanhada — o que, de certo modo, me dava um certo alívio. Ver que você tinha alguém, que havia construído vínculos, que não estava vagando por aí na mesma solidão que me acomete... Isso, de alguma forma, suavizava a dor.

E, mesmo assim, tudo parecia acontecer ao acaso. Juro que nunca te procurei de propósito. Simplesmente... onde eu estava, você também estava. Era como se nossas rotas, ainda que não mais paralelas, continuassem cruzando por pequenos instantes.

Por um tempo, pensei que fosse o universo me provocando. Que ele estivesse me colocando no seu caminho apenas para me lembrar, de forma cruel e silenciosa, do que eu fiz, ou melhor, do que eu deixei de fazer. Como se, ao te ver, ele me sussurrasse:

“Assuma a responsabilidade.”

Mas às vezes, quando respiro fundo e tento ver com menos dor, gosto de acreditar que pode ser algo mais bonito do que isso. Talvez seja só o sangue que nos une, o sangue que insiste em não nos deixar tão distantes assim.

E talvez, só talvez, esse mesmo sangue esteja tentando nos chamar de volta. Não para o mesmo lugar, nem para o mesmo tempo, mas, quem sabe, para algum tipo de reencontro, mesmo que silencioso. Mesmo que só com o olhar.

O medo, minha filha, é um dos sentimentos mais ambíguos que já experimentei.

De um lado, ele me paralisou, me acorrentou, me tornou uma mulher que fugiu. Mas, por outro lado, o mesmo medo também me ensinou a arte da camuflagem. Encontrei nas máscaras e nos disfarces elaborados o mais sutil e cotidiano: a capacidade de andar ao seu lado sem que você me percebesse, de estar presente sem existir de fato.

Sim, eu sei o quanto isso soa estranho, até patético, talvez. Mas foi o único jeito que encontrei de ainda fazer parte da sua vida, mesmo que à margem dela. Já que eu não tinha mais o direito de me apresentar como sua mãe, encontrei nas pequenas aparências uma forma de matar a saudade. Viver outras identidades que, ainda que por breves momentos, tinham o privilégio de estar próximas a você... Isso me dava uma ilusão reconfortante. Como se, por alguns minutos, eu ainda fizesse parte da sua história.

E embora essa presença oculta não fosse o que eu queria, ela era melhor do que o absoluto vazio. É triste dizer isso, mas ainda é mais fácil aceitar o papel de espectadora invisível do que viver no completo desconhecimento de você. Mesmo sem saber, você ainda me tem por perto. Eu continuo aqui, filha. Às sombras, mas ainda aqui.

Nosso primeiro “contato” foi inesperadamente mundano: num supermercado da cidade. Eu só tinha saído para comprar algumas coisas básicas: mistura, uns biscoitos que ainda me confortam nos dias difíceis, legumes e frutas para não esquecer de cuidar de mim, mesmo que minimamente.

Me lembro nitidamente de estar na seção de hortifruti, pegando tangerinas. Coloquei umas cinco ou seis na sacola, e foi nesse gesto banal que a memória me golpeou. Aquilo, para qualquer outro cliente, era só fruta. Mas para mim, era quase um ritual silencioso de nostalgia. Tangerinas sempre foram uma das suas frutas favoritas, lembra? Eu as comprava com frequência só para ver o jeito como você descascava, toda meticulosa, e depois comia sorrindo, como se aquilo fosse a melhor parte do dia.

Naquele instante, entre as prateleiras e o cheiro cítrico no ar, percebi que talvez fosse isso: mais do que buscar alimentos, eu procurava resgatar fragmentos de nós duas. Não era só saudade sua — era também saudade de quem eu fui quando ainda era sua mãe de verdade.

Foi então que percebi algumas tangerinas rolando pelo chão, como quem escapa de mãos distraídas. Não caíram por acidente ou tropeço, foi mais por descuido, um gesto apressado e desajeitado. Instintivamente, sem pensar duas vezes, me abaixei para recolhê-las. Eram três apenas, espalhadas ali no chão frio do supermercado, e juntá-las não foi nenhum esforço.

Levantei com as frutas nas mãos, ajeitei-as com cuidado em uma sacola plástica próxima e estendi-a à pessoa responsável, dizendo com simplicidade:

— Aqui… aqui está. — minha voz saiu automática, neutra.

Mas então, ao erguer os olhos e finalmente encarar o rosto à minha frente, meu corpo congelou. Era você. De novo. Dessa vez, não como uma silhueta distante em meio à multidão. Você estava ali, tão perto que eu podia contar os cílios, ver os detalhes do seu rosto, sentir seu perfume misturado com o cheiro de tangerina.

Você sorriu. Aquele sorriso meio sem graça, de quem quer ser educada com uma estranha que a ajudou num momento qualquer. Era um sorriso pequeno, quase tímido, mas era seu. E era lindo. Mais lindo ainda de perto.

Deus, como você cresceu bem.

Como seu rosto carrega traços de mim e, ao mesmo tempo, algo completamente seu.

— Não precisava se incomodar, moça… — você disse, com aquela gentileza automática que se usa com desconhecidos.

"Moça". Você me chamou de "moça". Aquilo me atravessou.

— Massss.. obrigada mesmo assim. — completou, pegando a sacola com cuidado das minhas mãos.

— De… de nada. — respondi, forçando a voz a sair mais grossa, mais distante da minha entonação natural. Não podia correr riscos.

Você sorriu de novo, acenou brevemente e se afastou, caminhando em direção aos caixas com as mãos já carregadas de sacolas. A cena durou segundos, mas reverberou em mim como se tivesse durado uma eternidade.

E eu fiquei ali, imóvel.

Que sensação cruel.

Tê-la tão próxima, poder tocá-la, falar com você… e, ao mesmo tempo, não poder ser sua mãe. Não ali. Não assim. Queria tanto te ajudar a carregar aquelas sacolas. Queria tanto te envolver num abraço apertado e te dizer o quanto eu te amo. O quanto sinto saudade.

Mas eu não podia.

E essa impossibilidade… me dilacerava.


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